Dica do Luciano: ‘Crônica da casa assassinada’
mar 22nd, 2010 | Autor Ana Claudia Souza | Categoria: Dica BlooksPara os que gostaram da primeira dica do Luciano Pinto, A solidão dos números primos, aqui segue uma nova: Crônica da casa assassinada, de Lucio Cardoso, editado pela Civilização Brasileira. Confira:
Quando cheguei no Rio de Janeiro, alguns anos atrás, fui trabalhar numa pequena livraria em Ipanema. No segundo dia de trabalho, o dono dessa livraria me perguntou se eu já tinha lido algum livro do Lucio Cardoso. Não, nunca tinha lido nada desse autor! Então ele me estendeu um livro grande, com uma capa séria. Era ‘Crônica da casa assassinada’.
É uma obra marcada pela escrita do “eu”. Apresenta um tom confessional, em que a memória é o elemento que vai desencadear a narrativa. A trama gira em torno de Nina, personagem estranha aos olhos da família, cujo comportamento liberado foge aos padrões impostos pela tradição dos Meneses. Nina é esposa de Valdo, sai do Rio de Janeiro e vai morar na Chácara de Vila Velha (Minas Gerais). Ela termina por desestabilizar com sua beleza e temperamento irreverente aquele mundo tradicional, repleto de convenções, com seu alicerce contaminado pela hipocrisia, frustração e solidão.Todos os moradores da casa se sentem seduzidos e ao mesmo tempo escandalizados com sua presença. Nina primeiro tem uma caso amoroso com o jardineiro, provocando a um só tempo a inveja da cunhada Ana, o ciúme do marido e o desconforto do cunhado Demétrio.Quinze anos mais tarde, após um afastamento da casa dos Meneses, ela retorna e mantém uma relação amorosa com André, que se acredita ser incestuosa e que só vai ser desvendada no final do romance.A obra retrata a destruição a partir de várias narrativas, todas de autorias diferentes, construídas por várias personagens.Para compor esse mosaico – que recorre a memórias pessoais sobre o que levou à destruição da casa e da família e os conflitos vividos na chácara de Vila Velha – o narrador utiliza várias fontes: diários, cartas, depoimentos, comentários, todos narrados em primeira pessoa.Lucio Cardoso nasceu em 1912, em Curvelo (MG) e morreu em 1968 no Rio de Janeiro. Escreveu ‘Crônica da casa assassinada’, sua obra ‘master’, em 1959.Além da literatura, dedicou-se também ao cinema, pintura e teatro. Foi incentivado por pessoas como Ítalo Rossi, Sergio Brito, Henriette Morineau. E com Clarice Lispector manteve uma longa amizade.Oito anos se passaram desde que cheguei no Rio de Janeiro. De lá pra cá tenho descoberto inúmeros autores. Pessoas que nem de longe eu imaginava que tivessem existido. Longe de mim parecer exagerado – ou romântico. Mas ouso dizer que fui recebido nessa cidade por uma atmosfera de muita alegria e calor, e por um dos maiores nomes da nossa literatura.





excelente postagem… devo dizer que uma das portas do rio de janeiro para mim, que venho do recife, foi a literatura, as horas nas livrarias.
sempre que alguém me apresenta um livro eu penso: as pessoas são livros. é assim que funciona. os livros contam não só a narrativa que eles trazem, mas também a história de quem o recomendou ou de quem lê. recomendar um livro é um gesto de alta responsabilidade.
bom que essa responsabilidade esteja em boas mãos. vamos ler lúcio cardoso.
ps. há uns três anos atrás estive, de passagem, em curvelo. não imaginava ser a terra de lúcio cardoso.
Fiquei com muita vontade de ler esse livro.