Dica do Fabio: Lygia Fagundes Telles e sua ‘Noite escura’
abr 12th, 2010 | Autor Ana Claudia Souza | Categoria: Dica Blooks
Capa do livro A noite escura e mais eu
Depois de um thriller, Fabio C, do time da Blooks, dá outra dica de leitura. Confira:
Tudo nela é chique. A começar pelo nome e aparência, passando por sua escrita, de uma precisão cirúrgica onde nenhuma palavra está fora do lugar, até chegar nos títulos escolhidos para seus livros (Antes do baile verde, Ciranda de pedra, As horas nuas, A disciplina do amor, A estrutura da bolha de sabão…).
Mas eu quero falar mesmo é de A noite escura e mais eu (COMPANHIA DAS LETRAS). A obra já começa com a enigmática poesia de Cecília Meireles – ‘Ninguém abra a sua porta para ver o que aconteceu: saímos de braço dado a noite escura e mais eu’. E continuamos de braço dado com a noite escura e mais Lygia para juntos adentrarmos em contos cheios de mistério e suspense. E a sempre presente sensação de que há algo a ser desvelado. E esse ‘algo’ fica à mercê de nossa imaginação, pois nunca é totalmente decifrado.
E de uma forma metafísica deliciosa, sem ostentação ou qualquer tipo de exibicionismo, LFT nos mostra, com todo carinho e paixão pela escrita, personagens maravilhosamente desenvolvidos capazes até, por que não?, de dialogar com insetos.
Meu conto preferido é Uma sombra branca pálida cujo título faz uma alusão à canção que embala o amor impossível entre duas jovens (Gina e Oriana) – A whiter shade of pale. Amor esse que tem como obstáculo uma mãe enciumada, protetora, enrijecida afetivamente e movida por uma certa inveja da juventude da filha e de sua sensualidade recém desabrochada. Ora, ora, contar mais do que isso estraga.
Ou então, os devaneios e lembranças de um encantador Anão de Jardim, no conto homônimo, que está prestes a ser demolido pela picareta e sua oração final – Pai nosso que estais no céu com a Constelação do Escorpião brilhando gloriosa brilhando com todas as estrelas e o braço do homem se levanta e fecho os olhos Seja feita a Vossa vontade e agora a picareta e então aceito também ser a estrela menor da grande cauda levantada no infinito deste céu de outubro.



