Uma história para Ágata

jul 14th, 2010 | Autor Toinho Castro | Categoria: Universo Blooks

Quando a noite cai e a Blooks fechas suas portas, lá pelas altas horas que reunidas compõem a madrugada, coisas inexplicáveis e inesperadas acontecem. Não, a livraria não é assombrada. Ou talvez seja, mas não por um fantasma e sim por uma personagem. Isso mesmo, uma personagem perdida e sem livro vaga pela Blooks em busca de uma história em que possa entrar. É o que diz um alto funcionário que não quer se identificar.

O que ele sabe ficou sabendo aos poucos e há muitas lacunas na história que ele conta. Já pensou, na verdade, em permanecer na livraria após o encerramento do expediente só para registrar, fotografar ou simplesmente testemunhar o fenômeno. Pergunto como ele ficou sabendo e a resposta é sempre vaga, do tipo “tem coisa que a gente sabe e pronto”. Ele me disse que a personagem misteriosa percorre a livraria com uma pequena lanterna, batendo à porta dos livros e pedindo para entrar. Seu nome é… Ágata.

 

agata_procurando

Às vezes um escritor tem uma inspiração, pensa numa personagem que seria interessante, mas não chega a escrever uma história pra ela. Essas persanagens acabam por desaparecer, se desmanchar mesmo, como algo muito sutil. Como um sabor que vai se perdendo na boca ou um vapor. Mas algumas são mais resistentes, tem uma força e uma vontade de existir que são maiores que a imaginação do autor. E elas escapam em busca de uma história, em busca de um livro. Foi isso que aconteceu com Ágata. O escritor que a imaginou estava ali na Blooks, distaído, folheando um volume de Joyce ou Machado e Ágata, zum, escapou e agora habita a livraria.

Toda noite percorre seu trajeto pelas estantes com sua lanterninha em busca do livro que a acolherá. Nessas horas muitas personagens ficam nas portas dos livros, aproveitando o ar da madrugada, conversando de um livro para o outro e trocando ideias sobre suas histórias. Ágata aproveita para fazer amizades e tentar um espaço entre eles e pertencer a alguma coisa que ela possa chamar de vida. Muitos são gentis com ela, alguns são mesmo grosseiros, rudes e há muitos misteriosos. Nenhum deles, no entanto, permite que Ágata ultrapasse a porta dos livros seus livros.

Mal o dia começa a raiar na enseada de botafogo e todos se recolhem de volta às histórias. As portas dos livros se fecham e desaparecem e Ágata apaga sua lanterna e volta a se esconder no seu lugar secreto, que nosso amigo funcionário diz desconfiar onde seja. Vai saber.

Ilustração Raquel Temporal

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