A alma encantadora das ruas
ago 17th, 2010 | Autor Luciano Pinto | Categoria: Dica Blooks
João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto nasceu dia 05 de agosto de 1881, no centro do Rio, atual rua Buenos Aires. Seu pai era um professor de matemática, positivista. Sua mãe, uma dona-de-casa sempre presente e dedicada. Ingressou na imprensa em 1899, assinando Paulo Barreto. Foi em 1903, no jornal Cidade do Rio, ao lado de José do Patrocínio e seu grupo de colaboradores que surgiu o pseudônimo João do Rio. Foi o primeiro homem da imprensa brasileira a conceber uma reportagem moderna e também foi o maior jornalista de seu tempo. Era um cronista social. Também usou outros pseudônimos, além de João do Rio: Claude, Caran d’Arche, Joe, José Antônio José, e vários outros. Sua popularidade era sempre grande por onde passava. Mas também teve desafetos, um deles era Humberto de Campos, que dificultou sua entrada na Academia Brasileira de Letras. Foram muitos insultos. Naquele tempo a palavra homofobia ainda não existia.Não seria ironia dizer que, para cada ofensa, João do Rio tenha traduzido uma obra de Oscar Wilde. Na minha opinião, uma vingança bastante delicada. Uma vingança a altura de seu caráter, educação e dignidade. Foi o primeiro grande “divulgador” e também tradutor da obra do escritor irlandês no Brasil. Ele pode não ter desafiado os rótulos e conceitos em torno do assunto, a homossexualidade. Mas comparando com os dias de hoje, vejo que João do Rio, mesmo diante de uma sociedade falsa e hipócrita, que ainda acreditava que homossexualidade era uma doença. Ainda assim João do Rio foi um homem que teve sua coragem impressa em tudo o que fez. Se não foi espalhafatoso era porque sua condição de dândi o privilegiava intelectualmente, e usou de inteligência e perspicácia para transitar em todos os meios.
A alma encantadora das ruas é um livro delicioso, cheio de curvas, morros, vozes, cores. É um documento fértil, um patrimônio histórico. Não conheço nenhum outro livro, qualquer outro texto, que ilustre a cidade do Rio de Janeiro da maneira que João do Rio fez. Um livro com a alma tão encantadora quanto a alma das ruas que ele próprio descreve em suas crônicas. Me sinto privilegiado por viver numa cidade como o Rio. Quando passeio pelo centro da cidade, é impossível não sentir a história que as ruas carregam. É impossível caminhar pela rua do Ouvidor sem imaginar João do Rio desvendando sua alma e seus mistérios. Basta parar alguns minutos em frente ao Teatro Municipal, fechar os olhos e sonhar com a grande noite de estréia de sua primeira peça teatral, em 1912. Ou imaginar seus falsos flertes com grandes estrelas, uma delas era Isadora Duncan, que se apresentou no Brasil, ali no Teatro Municipal, em 1916, e esteve com João do Rio grande parte do tempo, se conheceram anos antes, em Portugal.
Hoje quando atravesso os Arcos da Lapa e vejo homens trabalhando, restaurando aquele monumento, pintando, fico pensando como foi a construção, em 1723. Tenho como vizinhos ruas famosas, importantes, como a Frei Caneca, a pequena rua dos Inválidos, a tímida rua da Lapa, a atrevida rua Riachuelo. A Mem de Sá, que hoje tem um trecho fechado nos finais de semana, transformando-se em um grande palco para todo tipo de fanfarrices, comemorações e divertimentos. A Fundição Progresso também fica perto da minha casa, sempre com atrações, sempre acolhedora, convidativa. E o que dizer da rua do Lavradio, com sua gigantesca feira a céu aberto? Se João do Rio amou e idolatrou as ruas do Rio no século passado, hoje ele faria de toda essa diversidade uma obra jornalística ainda maior. Foi com certeza o homem que mais se aprofundou na alma do Rio. Virou do avesso o espírito do carioca. Polêmico. Inteligente. Elegante.
João do Rio sentiu-se mal durante todo o dia 23 de junho, era 1921. Entrou em um táxi e o mal estar aumentou. Pediu ao motorista que parasse o carro e lhe trouxesse um copo d’água. Antes que o socorro chegasse ele morreu de infarte. Rapidamente a notícia de sua morte se espalhou, estima-se que mais de 100 mil pessoas compareceram para o último adeus ao escritor.
A editora Cidade Viva acaba de lançar uma edição de luxo. Bilingue português-inglês, com ilustrações de Waltércio Caldas.




Excelente texto. O Rio realmente é uma cidade única, com personagens únicos, como João. Tenho essa mesma sensação ao andar pelo Centro da cidade. João transcrevia a cidade como se ela fosse dele, só dele. E acho que ele acertou nas previsões por conta desse amor pela cidade.