Como um jovem estudante de Harvard, notadamente sem traquejo social, poucos amigos no campus, desprezado pelas garotas e até mesmo (e de certa forma) inadaptado entre os “seus”, cria uma rede social, na essência não muito diferente das existentes e que em pouco tempo, torna-se a maior e influente do mundo, com número de usuários superiores a clientes de vários bancos importantes juntos e ainda seu criador se torna o mais jovem bilionário da história? Como?!
É a essa pergunta que Ben Mezrich tenta nos responder com seu mais novo livro: Bilionários por acaso: a criação do Facebook (Intrínseca), uma história de sexo, dinheiro, genialidade e traição. E consegue. O livro relata a fase pré-Facebook até às vésperas do boom do site e do mundo passar a realmente a notar o potencial da rede social. Ben repete um tema que lhe parece caro: jovens-estudantes-univeristários-que-mudam-o-sistema-com-seu-brilhantismo-e-senso-de-oportunidade. Foi assim que se tornou conhecido com o livro Quebrando a Banca – como seis estudantes ganharam milhões em Las Vegas, obra de não-ficção em que mostra como através da estatística e da boa memória os rapazes faturaram alto nas mesas de vinte-e-um, de maneira lícita, a fortuna de suas vidas – para o desbunde dos donos de cassinos.
Ben escreve entre o limite do relato jornalístico investigativo e o thriller, e assim tenta encontrar a forma ideal para cativar o leitor curioso que não espera muitas invencionices literárias, mas sim uma trama bem urdida; talvez por isso seus livros cheirem à roteiros com DNA do cinemão americano, como em Quebrando a banca, livro de 2006 que virou filme pelas mãos de Robert Luketic e o próprio Bilionários por acaso que virou “A rede social” pelas mãos do cultuado David Fincher – que parece ter o dom de melhorar os livros que adapta, como Clube da Luta e Zodíaco –, o filme parece ser um dos grandes do ano em indicações dos principais prêmios para 2011. Veremos…
De volta ao livro, na sua nota de abertura, o autor faz questão de frisar seu trabalho de entrevistar as personagens dessa história, do tempo dedicado às pesquisas e fontes e, principalmente, ao fato de que a obra não existira sem o relato de Eduardo Saverin – brasileiro cofundador do Facebook e da negação de Mark Zuckerberg em participar de alguma forma com o livro:
“(…) Mark Zuckerberg, em todo o seu direito, recusou-se a dar um depoimento para este livro, apesar de meus inúmeros pedidos.” (p. 8 )
Na falta do real protagonista, Ben Mezrich apoia-se na visão e impressões do mais próximo: Saverin. E um pouco por conta disto, a figura criada de Mark é distante, calada, enigmática e fria. E antes mesmo de entrar na história da ideia do site em si, Mezrich nos mostra um pouco de como funciona Harvard, a vida na instituição, as festas as regras sociais e principalmente os Clubes Finais, algo bem parecido às fraternidades americanas – eles gostam mesmo disto! – que reforçam o clima de competitividade no campus, além da sempre latente ideia de se encontrar uma garota aqui e ali. É numa dessas festas que Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin se conhecem e se tornam bons amigos (o primeiro vestido de bermudas, casaco surrado e sandálias Adidas, o segundo sempre alinhado com no mínimo um blazer – e ainda nerds às suas maneiras). Pela história, o Facebook nasceu motivado pelo aproveitamento de outras ideias, como a criação do “Facemash”, um site criado por Mark em que os usuários comparavam as garotas do campus no melhor estilo “vou/não vou”. Zuckerberg quase foi expulso da Harvard – mais por expor as falhas do sistema da universidade do que o incômodo social. Por conta do episódio, Mark tornou-se conhecido de uma forma que não gostaria, mas chamou a atenção dos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss e Divya Narendra, que buscavam um bom programador para o um projeto de que estavam desenvolvendo: uma rede social. Num primeiro momento, Mark aceitou colaborar com os rapazes, trocou sms’s, e-mails, reuniu-se e deu a entender que o projeto deles era bom e viável. O que os outros não sabiam é que paralelamente, Mark trabalhava na sua própria rede social: o thefacebook.com. Com financiamento de Saverin e a genialidade e dedicação de Zuckerberg, rapidamente o “thefacebook” caiu nas graças do campus – o site crescia em progressão geométrica. A reputação dos jovens aumentava no mesmo ritmo, Saverin passou por todas as fases do Phoenix – um clube final –, as garotas deixaram de odiar Zuckerberg e os rapazes da tecnologia começaram a vê-lo como um modelo a ser seguido. A passagem em que Mark e Eduardo transam num banheiro de alojamento é emblemática para ambos e sintetiza as mudanças de status dos rapazes:
“(…) ele não conseguiu conter o sorriso com o pensamento que lhe ocorreu.
Eles tinham groupies.” (p. 111)
E ainda:
“Um programa de computador realmente podia fazer com que você trepasse.” (p. 111)
Por outro lado os gêmeos Winklevoss e Divya iniciaram uma luta dentre as várias que Mark enfrentaria por “roubo de ideias” e acusações de outras formas. Desse ponto em diante, o criador do thefacebook e seu principal investidor e amigo perceberam que deveriam ir além, o potencial daquela rede social não poderia restringir-se às universidades e as primeiras propostas de investimento externo começaram a surgir – mas todas rejeitadas. Também por conta disto – dos rumos da nova empresa, financiada por Eduardo e tocada por Mark – as divergências entre os dois começam a surgir e um lado até então direcionado aos rivais por Mark também: a extrema proteção dos seus interesses. Muito desta divergência é desencadeada por conta da inclusão de um terceiro elemento: Sean Parker, cofundador do pesadelo da indústria gráfica: o Napster. Com a entrada (e depois saída) de Sean, o Face decola para o mundo e catalisa o que já parecia evidente nas linhas do romance: o Facebook é de Mark Zuckerberg e de mais ninguém. O resto é história.
Da leitura de Bilionários por acaso: a criação do Facebook, uma história de sexo, dinheiro, genialidade e traição, fica a sensação de que Ben Mezrich quis contar uma história de ascensão, pontuada pelo questionamento do que é traição e o que é oportunidade; de aprender com erros do passado do mundo do Vale do Silício e saber como evitá-los. A ausência da voz de Mark Zuckerberg cria um aura de mistério pelo rapaz de cabelos encaracolados que abandona Harvard e parte para Califórnia para dar cabo e desenvolver a maior rede social do planeta. O final aberto do livro nos diz que a história de ascensão (e queda?) ainda não terminou de ser contada e por ora, clico no botão “curtir” para ela, através dessa leitura.
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Ouvi falar muito bem do filme e agora que você falou do livro vou correndo comprar!
Deve ter rolado muita divergencia entre esses caras. Ta ai, vou pedir o livro no amigo oculto da firma
Eu tenho pena dessa geração Y. Conseguem tudo muito fácil e não tem apego por nada, principalmente sentimentos. É por isso que não pretendo ter filhos.
Eu achei o filme fraquíssimo mas vai que o livro é mais interessante. O Mauro diz que vale arriscar então lá vamos nós.