A fundação da cidade

jan 25th, 2012 | Autor Toinho Castro | Categoria: Universo Blooks

Hoje é dia de homenagear São Paulo, essa cidade sensacional que está a seis horas, de ônibus, do Rio de Janeiro. É verdade que não é uma data redonda mas danem-se as datas redondas. Mania de ciclos inteiros, perfeitos… São Paulo poderia ter mil anos! Imaginar que chegou aos seus 458! Olhando de assim de longe, do alto, com seus milhões de automóveis, fábricas, prédios cada vez mais de concreto e aço e vidro ao longo dos seus rios poluídos… quem diria que ainda estaria aí para surpreender. Olhando assim é um lugar impossível para nós, seres humanos das cavernas, das florestas e savanas, das grandes planícies. Fomos migrando, correndo dos predadores e por fim se fixando em locais ideais. Perto da água e da caça. Construindo, vilas e cidades e criando narrativas, música, literatura.

Criando barulhos insuportáveis, sons de motores, reunindo a maior quantidade de pessoas no menor espaço posssível, umas por sobre as outras em plataformas que se multiplicam e se elevam aos céus. A garoa, saudosa garoa, a semana de 22, que mudou tudo. A palavra de Osvald e o olhar de Tarsila. É lá que Caetano Veloso chega e nada entende e por fim quase a resume. Preciso dizer que resumir São Paulo é impossível, ou defini-la? Como entender esse monolito deixado com esfinge, provocando os mais controversos sentimentos. A cidade que está ali não é a que queríamos. É a que erguemos e estamos prontos para defendê-la e celebrá-la.

Uma coisa que primeiro nessa vida me ligou a São Paulo foi a poesia concreta. Os irmão Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari abriam para mim o grande livro de signos e pela primeira vez eu soube de um bairro chamado Perdizes. Nunca estive lá… mas para mim, naqueles tempos, era como uma fonte de onde vinha tudo que eu sabia sobre Pound, poesia russa e uma dimensão que eu, até então, não imaginava que a poesia pudesse ter. Eu não sabia nada sobre a poesia.

Quando eu era criança eu achava que São Paulo era o programa de Silvio Santos. Não faço ideia de como isso se processava na minha mente. Eu era uma criança, morava numa cidade… mas de uma maneira curiosa São Paulo era o programa de Silvio Santos. Quando no auditório ele gritava pelos nomes das caravanas de cidades e bairros que ali compareciam era como se estivesse traçando uma geografia. O programa do Silvio Santos era sim São Paulo.

Depois dos concreto vieram as músicas e aí São Paulo tornou-se irreversível. O pessoal da Lira Paulistana, o Grupo Rumo (aqui citado com a belíssima Fundação da cidade, música totalmente apropriada ao dia de hoje), Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé (que eu só escutei porque vi uma foto dele numa revista segurando um livro com poemas de Maiakóvski traduzidos pelos irmãos Campos)… A conexão estava feita e um amor por São Paulo estranhamente consolidado. Amor a distância que só foi superada nos anos 90, quando estive lá pela primeira vez. Também não entendi nada nem me preocupei muito com isso. Do alto do prédio do Banespa vi o monstro rugir, a máquina se movendo. Sua poesia concreta e todos os demais clichês. Emocionante.

Devemos fazer uma reverência a São Paulo, mesmo com todos os seus problemas e com tudo que nela nos assombra. Mesmo vendo o que vemos na TV sobre tudo que lá está errado. Eu adoro São Paulo. E você?

 

ps. fiz questão de citar as seis horas de ônibus porque sair do Rio no ônibus de meia-noite e chegar em São Paulo às seis da manhã é como atravessar um portal. Sensação indescritível.

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