Dica Blooks: Cavalo de guerra, de Michael Morpurgo

jan 24th, 2012 | Autor Toinho Castro | Categoria: Dica Blooks, Hoje na Blooks

Tenho medo das coisas comoventes… por serem comoventes e deixarem a gente naquele estado meio entre o sono e a vigília, com os olhos mirando a alma. E nem sabemos se existe alma. Quando vi que o novo filme do Steven Spielberg se chamava Cavalo de guerra eu elaborei do nada sobre o que seria o filme. A história de algum soldado raso que leva a guerra em suas costas, lutando por um batalhão. Tróia, pensei no cavalo de madeira, o tal presente de grego que até hoje assusta todos nós (quem quer receber um?). Ao pensar nisso tudo eu havia esquecido que se tratava de Spielberg e que a solução poderia ser bem mais simples. A história de um cavalo enviado à guerra.

E é disso que eu falo quando falo em comovente… ainda não consegui ir ao cinema, assistir ao filme, porque sei que ele é comovente e isso pode ser a semente de alguns infernos. Digam o que disserem (li péssimas coisas sobre o filme) a verdade é que Spielberg é um sujeito genial e tenho certeza que eles nos coloca na guerra e em tudo que ela significa, em toda sua dimensão.  Tenho certeza que estarei na pele daquele cavalo. Na tal cena do arame farpado e no sofrimento da separação. Sei que é uma história de amizade e nas histórias de amizade geralmente existem separações. Algumas irremediáveis. E aí meu coração pondera se quero mesmo passar por isso.

Pois o filme é a história desse cavalo que, separado do seu jovem dono, é levado para a guerra (a primeira grande guerra). É a história dessa amizade, da luta para sobreviver, em todos os sentidos, à brutalidade da guerra. Somos todos iguais, passamos pelas mesmas ondas que pretendem afogar a todos. Lutamos para manter a cabeça acima da linha d’água e reencontrar. E transformar o mundo à nossa volta.

Descobri então, depois do filme feito e nas telas, que o mesmo é baseado num livro, de mesmo nome, escrito pelo dramaturgo inglês Michael Morpurgo. E o que eu descobri sobre o livro que eu não sabia sobre o filme é que ele é narrado pelo animal. Um ponto de vista peculiar que geralmente é explorado.  E a primeira frase do primeiro capítulo é: Minhas lembranças mais antigas são uma confusão de campos montanhosos…

Sempre penso nas minhas lembranças mais antigas. Quais são as suas? Quais são as do seu cachorro, do seu gato? Quais são as lembranças mais antigas daqueles que olham uma última vez para o mundo. Isso é um poderoso começo de livro. Comovente, mas num sentido que só os livros podem ser, porque não tem uma trilha sonora pontuando os parágrafos. É você e as letras, e os espaços entre as palavras para você preencher. O livro é essa jornada um tanto dolorosa ao lado de um animal magnífico, cruzando os campos de guerra, através da dúvida e do medo,  rumo a alguma redenção. Super bem escrito, forte e corajoso. Não é fácil se colocar na alma de um cavalo (se é que as almas existem) e Michael Morpurgo alcança essa qualidade na sua literatura. Essa coisa fantástica que é não enganar o leitor.

Quanto ao filme, acabarei por assisti-lo poorque não resisto ao talento de Spielberg, digam o que disserem.

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