Dica do Fábio C.: A lula e a baleia
fev 6th, 2012 | Autor Toinho Castro | Categoria: DVDUma partida de tênis disputada entre um casal beirando os 40 e seus filhos corre sem grandes acontecimentos, até que surge no ar uma certa tensão. O marido a cada pontuação tenta mostrar sua superioridade à sua já irritada esposa. Uma discussão eclode e fica claro para nós que o amor ali já se fora há um tempinho.
O pavão decadente Bernard Berkman (Jeff Daniels) já foi um romancista de grande sucesso e age, sempre apegado ao passado, como se o fato fosse ainda atual. Há algo mais deprimente e decadente do que pessoas que se apegam ao passado e tem este como único assunto? Pessoas congeladas que não se permitem atualizar ou serem outra coisa são difíceis de digerir.
Sua esposa Joan (Laura Linney – impecável como sempre) está se tornando uma excelente ensaísta, para inveja e desprezo do marido que a vê como uma reles pupila com muita estrada pela frente. Algo também que me irrita: o não olhar para o outro e perceber que existe vida e assunto além de seu próprio umbigo.
Já torcendo para que ela mande o marido às favas o filme culmina em uma reunião de família. Há o comunicado da separação. Joan fica com a casa e o marido se muda para um bairro próximo e ‘mais em conta’ – aqui fica clara a sua avareza que abrange vários aspectos de sua vida.
Os filhos surtam e agem de maneira estranha. O mais velho Walt (Jesse Eisenberg) fica contra a mãe culpando-a pelo fim do casamento de dezessete anos, mostra-se um adolescente inebriado pelo conhecimento intelectual do pai, convencido desde sempre que um homem deve conhecer as grandes obras da literatura e do cinema mundial. Ou seja, um chato de galocha que cita obras de grandes autores, e o pior: sem nunca ter lido. Walt chega a ganhar um concurso de música plagiando ‘Hey You’ de Pink Floyd como se fosse de sua autoria. Altamente patético.
Já Frank (Owen Kline), carente, inseguro e que tenta agradar aos pais a todo momento, começa a ter estranho comportamento: bebedeira, fala o que dá na telha e se masturba em locais públicos inclusive, a cena da biblioteca na escola é impagável.
Noah Baumbach (diretor) e Walt são na realidade uma só personagem, o conflito é o mesmo – a busca por uma identidade própria. A personagem atravessa todo o filme contraponto situações e definindo sua moral.
Noah havia sido pupilo de outro mestre da sétima arte – Wes Anderson (‘Os Excêntricos Tenembaums’, ‘A Vida Marinha de Steve Zissou’ e ‘Viagem a Darjeeling’) e em sua aclamada estreia mostra toda a segurança e estilo, aplicando com maestria tudo o que aprendeu. A película é porosa e com as cores meio desmaiadas, o que é um charme, e fica a sensação de um filme original da década de oitenta.
Atente para a participação para lá de especial de Anna Paquin (a Sookie de ‘True Blood’), que faz uma aluna que vai embaralhar ainda mais a vida do professor e de seu filho idólatra, e a maravilhosa trilha sonora, principalmente Lou Reed e sua apoteótica ‘Street Hassle’, de onze minutos, da cena final. É de arrepiar como a música certa na cena certa mostra como se faz um final perfeito.




