A contadora de filmes – Hernán Rivera Letelier

“Somos feitos do mesmo material dos sonhos”
Shakespeare

Como eram muitas crianças para comprar material escolar, todo início de ano era aquela loucura! Meus pais se viravam da maneira que podiam para comprar mochilas, cadernos, lápis, borrachas, apontadores! Boa parte desse material vinha do governo. Cadernos com o hino nacional impresso na contra capa, ainda com cheiro forte da tinta da gráfica. Mas o pior de tudo não era ter que cantar o hino nacional, fazer juramento a bandeira ou rezar o Pai Nosso. Pior que isso tudo era não ter uma mochila para iniciar a longa jornada de educação e descobertas pós-ditadura militar.

Medardo foi abandonado pela mulher. Ele e os cinco filhos. Do maior para o menor: Mariano, Mirto, Manuel e Marcelino. Maria Margarita era a única menina. Ficaram todos órfãos e defeituosos. Todo mundo que é abandonado fica defeituoso. Tirando a fixação pela letra EME, não tinha nenhuma afinidade com Maria Magnólia. Não se pareciam em gostos. Ela vinte e cinco anos mais jovem que ele.

Nada mais delicioso do que começar a ler um livro e não conseguir largá-lo. Principalmente quando a história trava batalhas com nosso passado. E faz a gente lembrar coisas bacanas, muitas vezes esquecidas. A contadora de filmes, de Hernán Rivera Letelier, escritor chileno com mais de dez romances publicados, é uma pequena obra prima que chega ao Brasil pelas mãos da impecável Cosac & Naify.

O dinheiro na casa de Medardo não dava pra quase nada. Quando chegava um filme no acampamento da Mina, as moedas eram juntadas, o preço exato da entrada, e mandavam a menina assistir. Não pensem que Maria Margarita era sempre a escolhida por ser o único sexo feminino da casa. É porque ela era a melhor contadora. Quando chegava em casa tinha que contar o filme pra toda família, que aguardavam ansiosos, sentados enfileirados igual no cinema, de cabelos penteados e roupa limpa. O pai ocupava a única poltrona que eles tinham.

Dona Julia era uma velha vendedora de roupas usadas que andava pelo bairro, de porta em porta, com enormes sacolas cheias de roupas com histórias mastigadas. De todos, eu era quem mais se divertia naquele cenário. Certa vez encontrei um poncho azul, cheio de flu flu, e cismei que seria meu. E foi! Eu devia ter uns seis anos e naquele tempo as coisas não eram tão modernas como hoje. Comecei meu primeiro ano de escola de poncho azul e chupeta na boca!

Uma mãe que abandona o marido paralítico e os filhos. Um agiota safado. Vinho.
Delicadas referências cinematográficas. O administrador carinhoso. Um irmão gago. Outro que joga futebol. Marcelino, o Cabeça de Livros. Uma menina que ninguém da um tostão, até abrir a boca e começar a contar as histórias dos filmes que assiste. Uma paisagem esfumaçada. Golpe do Pinochet. Um vestido proibido. Uma xícara de chá. No povoado as pessoas começam a falar da menina contadora de filmes. E a frequência na sala da casa de Medardo foi aumentando a cada dia.

A contadora de filmes é desses livros que já nascem fadados ao sucesso. Tanto é verdade que até o final desse ano o cineasta Walter Salles deverá começar as filmagens de seu novo longa metragem, no deserto do Atacama, que será palco para a adaptação do livro de Letelier para o cinema. É um livro cheio de sentimentos e lembranças. É um livro impossível de ler sem passar um filme da minha infância diante dos meus olhos. O primeiro aparelho de televisão. A primeira geladeira. O primeiro tênis de marca. O primeiro cigarro. O primeiro beijo.

Outra coisa que merece ser comentada sobre esse lançamento da Cosac & Naify é o projeto gráfico de Paulo André Chagas. O livro é todo lindo! Sem falar que a história contada por Maria Margarita é um delicioso convite pra você contar a sua própria história. Afinal, “Somos feitos do mesmo material dos filmes”.

Be Sociable, Share!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Scroll To Top

Facebook