Entre os dias 3 e 14 de junho de 1992 acontecia no Rio de Janeiro a ECO – 92, evento que reuniu mais de 100 chefes de Estado para discutir meios de conciliar o desenvolvimento sócio-econômico com a conservação do planeta terra. Naquela época eu vivia no subúrbio curitibano e não catava mais papel nas ruas, com meu carrinho de rodinhas de rolimã fabricado no fundo do quintal com a ajuda dos meus irmãos. Eu tinha 15 anos e já era um cidadão que trabalhava com carteira assinada, FGTS, PIS, Fundo de Garantia, e todos os direitos trabalhistas garantidos pela lei. Sim, naquele tempo um garoto de 15 anos podia ingressar no mercado de trabalho e iniciar a vida adulta antes da hora, caso fosse necessário.
Em 1992 eu trabalhava durante o dia em uma fábrica de pão, como auxiliar de produção. O trabalho era simples, consistia em colocar os pães numa esteira, que os levava até uma cabine onde haviam outras pessoas cortando esses pães em máquinas, e outras que colocavam dentro dos pacotes, e outras que fechavam os pacotes, e outras que colocavam os pacotes dentro de caixas. Às vezes eu também trabalhava dentro da cabine. Mas o que eu gostava mesmo era de ficar ali, tirando os pães dos enormes cabideiros. Era um trabalho mais solitário e exigia menos atenção – ao contrário de ficar prestando atenção em um monte de serras desesperadas para cortar os pães em fatias do mesmo tamanho.
O presidente do Brasil era o Collor. Mas a batata dele já estava assando. Eu não tinha dinheiro na poupança para ser bloqueado e também não pintei a cara. Em casa tínhamos pão a vontade. Todos já eram crescidos e trabalhavam para ajudar no sustento da família. Foi nesse ano que entrei para um maldito curso de datilografia que durou exatamente um ano. O professor tinha um bafo de onça terrível. Eu procurava fazer todos os exercícios corretamente, evitando que o professor se dirigisse até minha mesa/máquina. Naquele tempo eu não acreditava no Collor principalmente pelo relação mal explicada no caso Ana Lídia.
Noutro dia recebi um casal de amigos em casa para um vinho e uns queijos e coisa e tal, conversávamos sobre vários assuntos, e claro, falamos sobre a Rio + 20 e a agitação que tomou conta da cidade. Eis que minha amiga, psicóloga, se vira e pergunta: “Eu só não entendi ainda por que colocaram esse nome de Rio +20″. Fecham-se as aspas e abrimos outra garrafa de vinho.
Galera da cúpula dos mundos anda irada com as resoluções (ou a falta delas) nesse evento que aconteceu em meio a centenas de carros blindados, tropa de choque e todas as artilharias possíveis para proteger tanta gente importante. Noutro dia eu estava tomando ares pela praia de Botafogo, quando dezenas de tanques de guerra, com soldados vestidos com uniformes que pareciam ter sidos tirados de um livro de história infantil. Na hora lembrei dos guardas da Casa Rosada, em Buenos Aires. Um japonês deu umas declarações dizendo que esperava mais decisões. Que a coisa não tá desenrolando muito bem. Em outra entrevista mudou completamente o discurso e disse que as decisões tomadas estão sendo de grande importância para a sustentabilidade do planeta. Ou o japa andou levando uns puxões de orelha, ou o tradutor entendeu tudo errado o que ele disse.
Vinte anos se passaram, eu não trabalho mais na fábrica de pão, e também conclui o maldito curso de datilografia. Que aliás, no teste final, onde havia uma prova de velocidade, tirei em 2º lugar, com 178 toques por minuto! Ok, pode parecer síndrome de Macabéa. Mas se naquele tempo eu não fazia ideia da razão de tanto asdfg asdfg asdfg asdfg asdfg (sic!). Em compensação, hoje quando me sento para digitar no computador, fecho os olhos e escrevo sem a preocupação de errar, o pensamento fica mais solto. E também escrevo mais absurdos e bobagens; Mas como diz uma frase que li em algum lugar ‘escrever é se expor’.
O Rio de Janeiro é sem dúvida uma cidade muito preocupada com a sustentabilidade. É visível a força e a coragem dessa gente que corre atrás e faz a coisa acontecer. Lá na esquina da Praia de Botafogo mesmo tem um carrocinha que vende comida caseira. No começo eu passava por ali e achava estranho aquelas pessoas comendo, ali no meio da calçada, sentadas em banquetinhas de plástico. Até o dia que descobri a vaca atolada, e desde então é sagrado, toda quarta e sábado é dia de vaca atolada na carrocinha do carequinha! Comida limpinha, fresquinha, de ótima procedência. Algumas pessoas passam e olham com estranhamento. Eu fico as gargalhadas com minha deliciosa martita de vaca atolada, todo trabalhado na sustentabilidade gastronômica!
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