Dica para os pequenos: Os encontros de um caracol aventureiro

Começamos a semana com um bom dia e uma dica muito legal para os pequenos leitores. É o livro Os encontros de um caracol aventureiro e outros poemas, de Federico García Lorca. É isso aí, poemas de García Lorca para as crianças abrirem a porta do mundo da poesia e da boa literatura ao mesmo tempo. As traduções ficam por conta de um outro poeta e tradutor de primeira linha, José Paulo Paes.

Naturalmente o que primeiro me pegou no livro, de longe, foi a capa. Uma linda cena de um sapo, um caracol e uma joaninha contemplando a noite, a noite profunda e imensa. Lembrei-me que mal contemplamos as noites nesses dias de hoje (ilustrações de Odilon Moraes). Então um livro assim é um chamado para muitas coisas boas. Eu mesmo não sabia que García Lorca tinha escrito esses poemas e os recebo como uma grata surpresa.

José Paulo Paes foi muito se dedicou à traduzir poemas de grandes autores para crianças e livros com traduções suas para Lewis Carrol e Edward Lear já foram publicados. Os poemas de Lorca vem se somar a essa série.

Literatura para crianças não é um nicho de mercada ou categoria de loja virtual; literatura para crianças é aquela que pode encantar uma criança, qualquer criança, de qualquer idade e não precisa ter sido produzida para uma faixa etária específica. Mas precisa trazer uma mensagem que realmente possa alcançá-las. Quem poderá dizer que os versos de Lorca são infantis… mas certamente eles falam com aquela voz comum que nos fala desde os mais tenros anos e que nos acompanha silenciosa… esperando ser ouvida outra vez.

Há doçura infantil
nesta manhã tão quieta.
As árvores esticam
os braços para a terra.
Um vapor onduloso
recobre as sementeiras,
e as aranhas estendem
seus caminhos de seda
- riscos no cristal limpo do ar.

Perto, na alameda,
uma fonte recita
o seu canto entre as ervas.
E o caracol, pacífico
burguês, lá da vereda,
ignorado e humilde,
na paisagem se enleva.
A divina quietude
que há na natureza
lhe deu valor e fé,
e esquecido das penas
de sua casa, quis
ver o final da senda.

Pôs-se a andar e internou-se
por um bosque de heras
e de urtigas. Lá dentro
havia duas rãs velhas
que tomavam seu sol,
enfadadas e enfermas.

“Esses cantos modernos
- murmurava uma delas -
são inúteis”. “Sim, todos,
amiga – lhe responde
outra rã, a qual estava
ferida e quase cega.
Quando jovem, eu achava
que se Deus algum dia
o nosso canto ouvisse,
teria dó. Meu saber,
pois eu já vivi bastante,
me leva a não crer nisso.
Eu já não canto mais…”

As duas rãs se queixam
e pedem uma esmola
a uma rãzinha nova
que toda presumida
vai afastando as ervas.

Ante o bosque sombrio
o caracol se aterra.
Quer gritar. Mas não pode.
As rãs se acercam dele.

“É uma mariposa?”
pergunta a quase cega.
“Ele tem dois chifrinhos
- a outra rã contesta.
É o caracol. Vens,
caracol, de outras terras?”

“Eu venho de casa e quero
para lá voltar depressa.”
“És um bicho bem covarde
- exclama a velha rã cega.
Não cantas nunca? “Não canto”,
Diz o caracol. “Nem rezas?”
“Tampouco: nunca aprendi.”
“Tu não crês na vida eterna?”
“Que é isso?”
“É viver sempre
dentro da água mais serena,
junto a uma terra florida
cheia de rico alimento.”

“Minha pobre avó me disse,
nos meus dias de criança,
que quando eu morresse iria
morar lá no alto das árvores,
sobre as folhinhas mais tenras.”

“Tua avó era uma herege.
A verdade é o que nós
te dizemos. E tens de crer”,
exclamam as rãs furiosas.

“Por que que eu quis ver a senda?
- geme o caracol. Sim, creio
para sempre nessa vida
eterna que pregais…”

Vão-se as rãs muito pensativas,
e o caracol, assustado,
afunda-se mais na selva.

As duas rãs mendigas
como esfinges se aquietam.
Uma delas pergunta:
“Acreditas na vida eterna?”
“Eu não”, diz muito triste
a rã ferida e cega.
“Por que dissemos, então,
ao caracol que creia?”
“Por que… Não sei por quê
- lhe responde a rã cega.
Eu fico emocionada
ao sentir a firmeza
com que meus filhos chamam
Deus lá de dentro da água…”

O pobre caracol
está de volta. Na senda
um silêncio ondulado
já vem lá da alameda.
Encontra-se com um grupo
de formigas encarnadas.
Elas, muito alvoroçadas,
vão arrastando, sem pena,
outra formiga que tem
as antenas quebradas.
O caracol exclama:
“Formiguinhas, paciência.
Por que assim maltratais
a vossa companheira?
Me contem o que ela fez.
Julgarei com consciência.
Conta-me tu, formiguinha.”

A formiga, meio morta,
diz com muita tristeza:
“Eu avistei as estrelas.”
“Mas que são estrelas?”, dizem
as formiguinhas inquietas.
E o caracol pergunta
pensativo: “Estrelas?”
“Sim – continua a formiga-,
avistei as estrelas,
subi à mais alta árvore
que existe na alameda
e vi milhares de olhos
dentro das minhas trevas.”
O caracol pergunta:
“Mas o que são as estrelas?”
“São luzes que levamos
sobre nossa cabeça.”

“Nós porém não as vemos”,
as formigas comentam.
E o caracol: “Meus olhos
só alcançam as ervas.”

As formigas exclamam
sacudindo as antenas:
“Vamos te matar; és
preguiçosa e perversa.
Trabalho é tua lei.”

“Eu avistei as estrelas”,
diz a formiga ferida:
“Deixai que ela se vá,
segui vosso labor.
É quase certo que logo
de fadiga ela morra.”

Pelo ar adocicado
uma abelha esvoaça.
A formiga, morrendo,
cheira a tarde imensa
e diz: “Ela vem para
me levar a uma estrela.”

As outras formiguinhas
fogem ao vê-la morta.

O caracol suspira
e se afasta surpreso
cheio de confusão
quanto ao eterno. “O caminho
não tem fim – exclama.
É por aqui talvez
que se chega às estrelas.
Mas como sou tão lento
lá nunca irei chegar.
Não há por que pensar nelas.”

O sol fraco e a neblina
punham tudo brumoso.
Os sinos na distância
chamam gente à igreja,
e o caracol, burguês
pacífico da senda,
aturdido e inquieto,
contempla a paisagem.

Frederico García Lorca
Tradução de José Paulo Paes

Be Sociable, Share!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Scroll To Top

Facebook