Na estrada com Kerouac

Anos atrás eu estava no aeroporto do Recife, já bem tarde da noite, esperando o voo para o Rio de Janeiro. Estavam comigo Roberval, um grande amigo, e Raquel, que eu acabara de conhecer. Enquanto conversávamos, animados pelos dias que havíamos passados juntos na última semana, acabei por não escutar a chamada do voo. Fomos então despertados da nossa alegria e empolgação pelo meu nome sendo anunciado nos altofalantes do aeroporto. Parece que era a minha última chance de embarcar naquele avião. Saí correndo mal me despedindo de Roberval e com Raquel segurando minha mão, me acompanhando até o portão de embarque onde funcionários sabe-se lá de que companhia me esperavam, pareceu-me, ansiosos. Já estávamos, eu e ela, enamorados. Mas antes de partir, sem saber se iria encontrá-la outra vez, deixei-lhe algo… meu exemplar surrado de On the road. Isso significava muito.

Essa história é para falar da importância de On the road, de Jack Kerouac, nessa minha vida. É um livro seminal para mim, um livro das amizades. A jornada de um homem pela América, mas como se fosse, e era, pela alma. Os anos 50 e as grandes mudanças da juventude se anunciando pelas vozes da geração Beat. Kerouac era uma dessas vozes iluminadas. Um Buda, como o chamaria Allen Ginsberg. Deixei meu On the road com Raquel porque era esse livro sobre pessoas que estão longe, e de repente estão perto. Que cruzam o país para se encontrar, que dão um jeito de rever um ao outro.

No fim das contas On the road é um livro triste. Sobre separações também. Os tempos eram também conturbados assim como as pessoas. Mas havia a chama.

Kerouac e sua obra estão de volta à pauta. Graças à adaptação para as telas que o Walter Salles acabou de realizar. De repente sopra um vento de frescura sobre as páginas que embalaram sonhos e desilusões de uma geração e o livro reaparece nas livrarias. Deixa para trás a vida de edição de bolso e ressurge novo. A capa, atualizada, traz uma cena do filme. E uma nova geração deve agora perambular por aquelas estradas empoeiradas, entrar naquelas vidas imensas que até hoje nos desafiam. Grande livro. Bom tê-lo de volta nos lançamentos.

E como os filmes sempre levantam a bola para o mercado um outro livro chega  às livraria. Trata-se de Jack Kerouac – king of the Beats, de Barry Milles. A biografia de Kerouac vem para lançar mais luzes sobre essa história louca e turbulenta que viveu o escritor. Seus livros são uma paisagem cheia de contradições e de personagens cheios de vida, porque estão vivos. Porque estavam lado a lado com ele e tudo é intenso, tudo é forte demais e é preciso ter peito aberto para acompanhar a jornada. Lembro agora da frase que encerrava do prefácio do também poeta William Carlos Williams para Uivo, o poema de Allen Ginsberg: Senhoras, levantem a barra de suas saias. Vamos atravessar o inferno.

vale demais ler essa duas biografias. Uma mágica, apesar das sombras; vista de dentro. A outra, uma visão de fora, apaixonada, certamente. Mas uma visão de estudo e entendimento. Levantem a barra de suas saias e vamos atravessar a vida e as estradas de Jack Kerouac.

E quanto ao velho livro. No fundo eu sabia que iria reencontrar Raquel e tê-lo de volta. :)

Hoje ele faz parte da nossa biblioteca e traz consigo essa história de um amor que começava, apesar do aeroporto, no meio da estrada.

 

 

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