Tem um livro de poemas na Blooks que traz uma revelação. A revelação da simplicidade intrincada, de delicadeza e suas arestas. A revelação do silêncio, do vazio, das palavras poucas que podem compor um sentimento. É preciso um mínimo nesse livro para trazer aquele olhar que sai da página e se vira para o nada, para o pensamento. Trata-se de uma seleção de poemas da poeta americana Emily Dickinson, nascida na cidade de Amherst, em 1830. Em Amherst Emily também morreu, aos 56. Lá viveu uma vida reclusa. Vestida de branco, sem sair de casa, parecia mais um mito, uma lenda. Apesar dos 1800 poemas escritos não chegoua publicar um livro de versos em vida.
Alguns poemas é uma seleção de poemas, com tradução de José Lins, que a figura de Emily Dickinson de volta às prateleiras no Brasil. Li, há muitos anos, uma outra seleção de poemas, que perdi de vista. Como perdi o livro ou o emprestei e nunca mais o recebi de volta, vagava pelas livrarias em busca de um exemplar, ou qualquer outro com seus poemas, e nunca encontrava. Havia um certo desalento. Havia nas livrarias brasileiras essa falta da escrita precisa, mínima e milimétrica de Emily Dickinson.
Essa lacuna foi preenchida. O livro brilha como um marco de certas coisas não podem ser esquecidas e de que a poesia está para muito além de versos adocicados, elegias exuberantes e sonetos ou versos alexandrinos. O poesia elegante de Emily Dickinson resta entre nós e se você não a conhece esse livro é a rara oportunidade, e você não vai deixar que ela passe.
Porque não tinha tempo para a Morte
Ela gentil veio buscar-me –
A Carruagem só levou nós Duas –
E a Imortalidade.
Fomos sem pressa – a Morte não tem pressa
E por dever de Cortesia
Eu tinha posto o meu Lazer de lado
E o Afã do dia-a-dia
Passamos pela Escola onde as Crianças
Brincavam no Recreio –
Pelos Campos de Grãos que nos olhavam –
Pelo Sol a esconder-se –
Ou talvez era o Sol que nos passava –
De frio já tremia o Orvalho –
Era uma renda fina meu Vestido –
Tule – meu Agasalho –
Paramos junto de uma Casa que era
Como um monturo ali no Solo –
O Telhado já quase não se via –
A Cornija – no Solo –
Desde então – já faz séculos – e eu acho
Mais longo o Dia – na verdade –
Que as Caras dos Cavalos nos guiavam
Para a Eternidade –
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