São dez anos sem lançar poesia… é um longo intervalo para que não haja poesia entre nós, certo? Mas um intervalo tem sempre um início e um fim e este chegou para o poeta, letrista e filósofo (listando assim nem parece que possam ser indistinguíveis) Antonio Cícero. Finalmente ele lançou ao mundo um volume de poesias e podemos apreciar seu belo Porventura.
Porventura é um bom nome para o livro de poemas, ainda mais um que reúne os elementos de uma força poética poderosa. E se você não sabe quem é Antonio Cícero será capaz de identificar essa força na música popular, nos diversos versos que ele escreveu e que rodam nas rádios por aí na voz de gente como Marina (Fullgás) e Adriana Calcanhotto (a belíssima Inverno).
Então que seja bem-vinda a poesia iluminada de Cícero, que se mistura com canções e olha para o Rio de Janeiro, para a memória, tão lírica.
PRESENTE
Por que não me deitar sobre este
gramado, se o consente o tempo,
e há um cheiro de flores e verde
e um céu azul por firmamento
e a brisa displicentemente
acaricia-me os cabelos?
E por que não, por um momento,
nem me lembrar que há sofrimento
de um lado e de outro e atrás e à frente
e, ouvindo os pássaros ao vento
sem mais nem menos, de repente,
antes que a idade breve leve
cabelos sonhos devaneios,
dar a mim mesmo este presente?APARÊNCIAS
Não sou mais tolo não mais me queixo:
enganassem-me mais desenganassem-me mais
mais rápidas mais vorazes e arrebatadoras
mais volúveis mais voláteis
mais aparecessem para mim e desaparecessem
mais velassem mais desvelassem mais revelassem mais revelassem
mais eu viveria tantas mortes
morreria tantas vidas
jamais me queixaria
jamais.
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