Dica Blooks: A última madrugada, de J. P. Cuenca

Quantos Rios de Janeiro existem ou coexistem no Rio de Janeiro? Quantos para você chamar de seu? Temos todos essa ideia de um Rio de Janeiro que se perdeu, que não é mais como era. Muitos de nós, a maioria talvez, nem chegaram a conhecer esse Rio perdido. Ele existe como sombras, relíquias, sinais numa esquina em que resta certo bar. Então vamos redescobrindo essa cidade soterrada como os astrônomos descobrem planetas, indiratamente, pela sua ação sobre outros corpos.

Como o Rio de Janeiro foi uma cidade muito cantada, falada, documentada, parece que todos nós moramos nela através das décadas e saímos a procurá-la. Tentando identificar essa saudade. No entanto não é preciso ter saudade porque tem um Rio de Janeiro que está aqui e agora.

João Paulo Quenca reune em seu novo livro, A última madrugada, uma série de crônicas publicadas entre 2003 e 201o e que traçam linhas de passagem por um Rio ora imaginário, ora sólido como as rochas que o adornam. São passeios pela madrugada, bares e ruas por onde passam os cariocas, nativos ou não, em busca daquele algo que para eles compõe a cidade. E J. P. Cuenca os encara, pessoas, ladrilhos, praças e bares com um olhar que só mesmo um cronista tem, esse olhar ao mesmo tempo crítico e terno. Que desnuda e também redime.

Ler o livro de Cuenca é andar a esmo pelo Rio, reconhecer que ele não está no óbvio, naquilo que nos vendem como Rio de Janeiro. Que é preciso espreitar e entender que o que se insinua numa esquina é uma oportunidade de se fazer presente na cidade. E a cidade está disposta em camadas e camadas que não são impenetráveis. São translúcidas e cabe a nós um olhar diferente da nostalgia e dos modismos que nos cercam e nos cegam.

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