01/12/2009

Depois da guerra, a guerra continua 

Num país africano imaginário, chamado Mboasu, devastado pela guerra, os pais não conseguem mais cuidar de seus filhos, que são expulsos de casa, acusados de serem a causa de todos os males. O romance Contornos do dia que vem vindo, de Léonora Miano, constrói esse cenário caótico e acompanha Musango, uma menina de 12 anos, na busca pela mãe nesse país arrasado por um confronto armado.

Fica bem claro que o olhar da personagem é o de quem teve que crescer rapidamente e tenta compreender a sua história. Léonora Miano cria uma personagem que vê seu povo, seu país, suas raízes de forma melancólica. E ao mesmo que a jovem acaba desenvolvendo uma relação de amor e ódio com sua história, segue cheia de crença e esperança no futuro.
Nascida em Camarões, a escritora esteve recentemente no Brasil para participar das programações do Ano da França no Brasil. Miano falou sobre suas experiências literárias a partir de conflitos. E discutiu também a herança de violência com a qual os jovens africanos de hoje têm que lidar para não repetir os erros das gerações anteriores.

Contornos do dia que vem vindo, de Leonora Miano. Editora Pallas. R$ 38,00

O cotidiano de uma aldeia israelense 

Considerado um dos melhores escritores israelenses da atualidade, Amós Oz apresenta neste novo livro, Cenas da vida na aldeia, histórias diferentes que se desenrolam paralelas, enquanto seus protagonistas se cruzam transversalmente como figurantes em histórias alheias. A história se passa numa aldeia centenária, entre o fim do verão e o início do inverno. O livro é quase cinematográfico, repleto de beleza campestre de uma “Toscana israelense”. Em Cenas da vida na aldeia, Amós Oz se atém à simplicidade das pessoas, dos acontecimentos, das paisagens corriqueiras que se repetem e se cruzam para, a partir deles, abrir diante do leitor a cortina de outro mundo possível.

Cenas da vida na aldeia, de Amós Oz. Companhia Das Letras.  R$ 38,00

O que há por trás dos números primos 

Ler um livro num fôlego só, sem uma interrupção sequer, é um daqueles prazeres raros, proporcionados por alguns livros especiais. A julgar pelas críticas e cifras - mais de um milhão de exemplares vendidos mundo afora - este é o caso A solidão dos números primos, de Paolo Giordano, um estudante italiano de Física, 26 anos, que ganhou no ano passado um dos mais importantes prêmios literários de Itália.

Numa história contada de forma crua e fatalista, Alice e Mattia são vítimas de experiências pessoais trágicas e têm as vidas cruzadas, como dois números primos, tão próximos quanto distantes.A inteligência emocional é o grande pivô da história. A inércia das personagens leva o leitor a questionar e querer alterar certas coisas, até o final do livro, que, apesar de absurdo, é bem plausível.

Em breve, a história chega ao cinema: os direitos para adaptação do livro já foram vendidos.

A solidão dos números primos, de Paolo Giordano. Editora Rocco. R$ 37,50
 

Nos porões de Pinochet 

Alberto Ruiz-Tagle é um jovem poeta esquivo e sedutor que frequenta, nos primeiros anos da década de 70, as oficinas literárias da Universidade de Concepción, no Chile. Com o golpe militar que se abate sobre o país em 1973, ele some de circulação, como praticamente todos os participantes das oficinas. É partindo desta trama que o autor chileno Roberto Bolano desenvolve sua história em Estrela Distante. O relato tem como cenário o regime ditatorial de Pinochet e a permanência dos fugitivos e exilados na Europa.
 
Roberto Bolaño, com sua habitual mistura de memórias pessoais e ficção, transforma esse pequeno romance em um retrato subjetivo da sua própria geração, que tinha em torno dos vinte anos quando ocorreu a derrubada do governo Salvador Allende e consequentemente, a implantação de uma das mais sangrentas ditaduras militares do continente.

Estrela distante, de Roberto Bolano. Editora Companhia das Letras. R$ 33,00

Um Japão dividido em dois

Dividido em duas novelas, o livro A vida secreta do senhor De Musashi , do japonês Junichiro Tanizaki, disseca as transformações culturais de seu país sob impacto da influência ocidental.
Na primeira novela, que dá título ao livro, Tanizaki mostra a vida de um samurai do século XVI, de forma extremamente suave, investindo numa linguagem lírica que soa paródica. O  guerreiro Musashi se distinguirá por sua crueldade desgovernada. O momento decisivo de sua formação acontece quando, aos 12 anos, ele é apresentado a uma prática chamada "adornar cabeças": as cabeças decapitadas dos inimigos são maquiadas por mulheres. Mais tarde, ao matar um líder opositor, Musashi não consegue arrancar sua cabeça: rouba-lhe apenas o nariz, dando assim início a uma trajetória de herói pervertido – na guerra e no sexo.

Kuzu, a segunda novela, é igualmente rica em questões psicanalíticas. É o making of de um romance histórico frustrado: o narrador viaja ao Japão profundo para localizar a Corte do Sul, onde teria vivido o Imperador Celestial. A viagem tem um caráter literário, com descrições nostálgicas da paisagem, mas o relato acaba desviando-se do passado para focar o drama de um jovem solitário, com parentes na região, que viaja com o narrador. 

Junichiro Tanizaki é sem sombra de dúvidas um ponto nítido de contato entre a literatura japonesa e o ocidente.
 
A vida secreta do senhor de Musashi,  de Junichiro Tanizaki. Editora Companhia Das Letras. R$ 45,00

Entre bombas, livros e a busca pela liberdade

Erzsébet é uma estudante que se esconde das bombas, tiros e morteiros que assolam a capital da Hungria nos últimos dias da ocupação nazista, ao mesmo tempo em que cuida obsessivamente da segurança do pai.  É assim que pode ser resumida a trama criada pela escritora Sándor Márai, acostumada a inserir as vozes da narrativa num discurso polifônico e envolvente. No romance Libertação a personagem se vê encurralada entre as atrocidades nazistas e a ocupação soviética. O país, a cidade e a personagem compartilham a angustiosa espera pela libertação, enquanto o futuro se anuncia ao mesmo tempo luminoso e sombrio, promissor e incerto.

Libertação, de Sandor Marai. Editora Companhia Das Letras. R$ 36,50
 
 
 



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