Suely Mesquita: ‘Sexo Puro’ para ler e ouvir
Enquanto ouço Suely Mesquita, leio Suely Mesquita e fico sabendo como foram feitas algumas de suas muitas canções. Dezenove delas estão reunidas no CD que acompanha o livro recém-lançado com a biografia desta cantora, compositora e professora de canto de um número grande de alunos, muitos deles cantores que se tornaram famosos. O livro é bom de ler, como são boas de ouvir as canções de Suely. Só tem um detalhe: ao contrário das músicas, todas em ótimo português, o livro é todo em inglês: a trajetória e história das criações desta carioca chamaram a atenção de um professor e escritor americano, que veio para cá, fez várias entrevistas com ela, reuniu fotos e publicou por uma editora americana Sexo Puro: A life in Brazilian Song – Suely Mesquita interviewed by Bob Gaulke.

Capa do livro 'Sexo Puro', biografia de Suely Mesquita
O livro foi lançado num show delicioso, no Estúdio EcoSom, em Botafogo, na noite de sexta-feira, 13 de agosto. O autor acompanhou toda a festa dos Estados Unidos, via internet: a câmera de um laptop mostrava tudo ao vivo, de modo que Bob Gaulke, que conheceu Suely no início dos anos 2000 em listas de discussão sobre música brasileira na internet, pudesse participar do lançamento de sua criação.
Alguns dos parceiros constantes de Suely Mesquita subiram ao palco para canjas variadas, que passearam pelo repertório denso, lúdico e criativo dela. Fernanda Abreu abriu a noite, cantando Roda que se mexe, parceria das duas com Rodrigo Campello. E como o clima era de encontro de amigos, Fernanda contou uma das muitas boas histórias da noite sobre Suely: toda vez que toma banho e lava a cabeça, lembra da amiga de muitos anos, com quem já teve aula de canto. Numa delas, Fernanda chegou e Suely, ainda de toalha para secar os cabelos molhados, botou a cabeça pra baixo, sacudiu a cabeleira com as mãos para soltar os fios de dentro para fora, de baixo pra cima, e só então jogou a cabeça de volta pro lugar. “Aprendi e até hoje faço isso. E toda vez que lavo a cabeça lembro da Suely. Como hoje tomei banho e lavei a cabeça, lembrei dela”, disse Fernanda, que, enquanto falava, imitava o gesto, para gargalhada da platéia. “Lembro, mas não faço mais isso, não”, riu Suely.
Depois foi a vez de Luís Capucho, que relembrou trechinho de Romena, composta por Suely a partir de uma história de Fernanda, e Batata, que está no CD numa gravação original feita anos atrás e gravada em fita cassete. “Muitas das músicas que fiz nos anos 90, só sei que fiz porque Suely gravou na casa dela, enquanto eu mostrava pra ela”, disse Capucho.

Capa do CD que acompanha o livro sobre Suely Mesquita: 19 canções dela com parceiros
Na seqüência, Glauco Lourenço, cujo CD de estréia tem a maioria das músicas feitas em parceria com ela, cantou Realejo, que está em Abalo Sísmico (em preparação, o segundo CD do cantor também terá a maioria das canções em parceria com Suely Mesquita).
Paulo Baiano cantou e tocou ao piano Forças de Angola, outra música que mereceu história da criação – também contada no livro: ela trabalhava na enciclopédia Barsa e um dia, no meio das tarefas de recolher os acontecimentos de cada dia para o anuário, topou com a informação que dizia que naquele data “forças da Angola invadiram o país vizinho”. A frase virou inspiração e na mesma hora, numa página em branco, Suely concebeu a letra (enorme) de Forças de Angola, musicada depois por Paulo Baiano, com cara de oração e ponto de macumba. Linda. Bethi Albano encerrou o revezamento de canjas da noite com Bala de rima..
Cada uma das histórias que envolveu a criação dessas canções está descrita em Sexo Puro: A life in Brazilian Song – Suely Mesquita interviewed by Bob Gaulke, com letras das 19 músicas do CD que o acompanha. Além disso, no livro ela fala sobre a descoberta de seu talento, o início da carreira, os parceiros… No fim, há uma discografia minuciosa, com a relação dos CDs gravados e lançados por Suely Mesquita, a trilha de um filme, as músicas dela gravadas por outros artistas.
Ao longo de todo o livro, vai-se esbarrando com nomes conhecidos e percebe-se como a gente está acostumado à Suely, embora ela soe para muitos como uma novidade. Além dos parceiros da noite de lançamento de Sexo Puro, compuseram e/ou cantaram Suely, entre outros, nomes como Zeca Baleiro, Moska, Celso Fonseca, Daúde e Pedro Luís, que assina a introdução da biografia.
É ótimo descobrir novidades e, melhor ainda, descobrir que as supostas novidades são nossas conhecidas de muito tempo. Suely é popular, engraçada, profunda, leve e complexa, tudo misturado, num som que não dá vontade de parar de ouvir – ao contrário dos hits-chiclete, que grudam no ouvido e dos quais a gente quer se livrar. Das músicas dela, não. Ouve-se de novo para ouvir melhor, captar a letra, pegar o que se perdeu na primeira audição, saborear a melodia. Com o livro do lado, ouvi-la é ainda mais prazeroso.
Um pequeno apêndice fundamental: além das participações, Suely Mesquita e o parceiro do momento, Eugenio Dale, fizeram várias canções que estão no show Dio&Baco, que têm feito juntos (Pactocombaco é genial). Um programão. E o que é melhor: vai voltar o EcoSom em setembro. É bom prestar atenção.
A transmissão ao vivo está gravada e, com paciência, pode-se assistir ao show abaixo. Vale a pena:
As músicas que compõem o CD de Sexo Puro: A life in Brazilian Song são:
- Qualquer lugar (Suely Mesquita)
- Minha Dalva de Oliveira ( Suely Mesquita e Celso Fonseca)
- Morrer de bem ( Suely Mesquita e Rodrigo Campello)
- Porta aberta (Suely Mesquita, Arícia Mess e Aurélio Dias)
- Porcelana (Suely Mesquita, Kali C. e Dudu Caribé)
- Batata (Suely Mesquita e Luís Capucho)
- Latim (Suely Mesquita)
- Pisca (Suely Mesquita e Zeca Baleiro)
- Forças de Angola (Suely Mesquita e Paulo Baiano)
- TV que ninguém vê (Suely Mesquita e Glauco Lourenço)
- Castelo de areia (Suely Mesquita e Marcela Biasi)
- Bruxelas (Suely Mesquita e Paulo Baiano)
- Romena (Suely Mesquita e Luís Capucho)
- Sem capotta (Suely Mesquita e Eugenio Dale)
- Bala de rima (Suely Mesquita e Bethi Albano)
- Mais música (Suely Mesquita)
- Moderno amor (Suely Mesquita e Mário Sève)
- Samba de branco (Suely Mesquita e Bethi Albano)
- Que qui tu tá/Interesse (Suely Mesquita, Rodrigo Campello e Pedro Luís)





