Minha relação com Laurie Anderson começou com uma audição completa do disco United States I-I, na querida rádio Fluminense FM. A paixão veio com o filme/disco Home of the Brave, traduzido aqui no Brasil como Terra dos Bravos. Tive a chance de assisti-lo no cinema Bruni Ipanema, em uma sessão da tarde repleta de casais de senhores e senhoras com cabeças brancas. Todos ficaram até o final, imersos nas propostas musicais e visuais do filme.
Laurie Anderson como seu alter ego masculino, Fenway Bergamot
Homeland é o novo trabalho da Laurie Anderson após um hiato de nove anos. Seu último disco foi o álbum duplo ao vivo Live at Town Hall, September 19-20, 2001, dias após a tragédia das Torres Gêmeas. Neste ínterim, Ms. Lou Reed se dedicou a várias tournées, exposições e lançou livros como Night Life (sobre seus sonhos, com poesias e desenhos) e Nothing in My Pockets (um diário sonoro, produzido pela rádio estatal francesa France Culture, com dois cd’s e fotografias).
Neste novo álbum, Laurie retorna trazendo imagens musicais íntimas e delicadas do seu mundo interior, as impressões e sonhos do dia-a-dia. Em contraste, a crítica voraz ao “american way of life” (“o mundo exterior”) ressoa em Only an Expert (veja abaixo), um relato contundente da manipulação global que sofremos, onde pessoas, empresas e nações se transformam em marionetes dos “especialistas” de plantão. Uma das melhores letras já escritas por ela e a música, com uma batida dançante, quase house, tem a guitarra do maridão Lou pontilhando o clima de urgência e de quase desespero que o assunto sugere.
O disco introduz também o impagável alter ego de Laurie, Fenway Bergamot, que é o narrador na música Another Day in America. É hilário! Assista uma estória contada por ele (The Crash):
A edição americana de Homeland vem também com um DVD com dois minidocumentários imperdíveis: Homeland: The Story of the Lark, 40 minutos contando os bastidores do disco e do processo de criação, e Laurie’s Violin onde são mostradas as programações eletrônicas utilizadas nas músicas e como elas são trabalhadas sobre o violino. Apaixonante!
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Os DJs Brant e Jorge LZ apresentam o programa Geleia Moderna, todo sábado, ao vivo, às 17h, na rádio Roquette Pinto, que você pode ouvir em versão podcast. E leia aqui a coluna Enquanto isso no Geleia Moderna, toda semana na Blooks.
João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto nasceu dia 05 de agosto de 1881, no centro do Rio, atual rua Buenos Aires. Seu pai era um professor de matemática, positivista. Sua mãe, uma dona-de-casa sempre presente e dedicada. Ingressou na imprensa em 1899, assinando Paulo Barreto. Foi em 1903, no jornal Cidade do Rio, ao lado de José do Patrocínio e seu grupo de colaboradores que surgiu o pseudônimo João do Rio. Foi o primeiro homem da imprensa brasileira a conceber uma reportagem moderna e também foi o maior jornalista de seu tempo. Era um cronista social. Também usou outros pseudônimos, além de João do Rio: Claude, Caran d’Arche, Joe, José Antônio José, e vários outros. Sua popularidade era sempre grande por onde passava. Mas também teve desafetos, um deles era Humberto de Campos, que dificultou sua entrada na Academia Brasileira de Letras. Foram muitos insultos. Naquele tempo a palavra homofobia ainda não existia.
Não seria ironia dizer que, para cada ofensa, João do Rio tenha traduzido uma obra de Oscar Wilde. Na minha opinião, uma vingança bastante delicada. Uma vingança a altura de seu caráter, educação e dignidade. Foi o primeiro grande “divulgador” e também tradutor da obra do escritor irlandês no Brasil. Ele pode não ter desafiado os rótulos e conceitos em torno do assunto, a homossexualidade. Mas comparando com os dias de hoje, vejo que João do Rio, mesmo diante de uma sociedade falsa e hipócrita, que ainda acreditava que homossexualidade era uma doença. Ainda assim João do Rio foi um homem que teve sua coragem impressa em tudo o que fez. Se não foi espalhafatoso era porque sua condição de dândi o privilegiava intelectualmente, e usou de inteligência e perspicácia para transitar em todos os meios.
O que mais me chama a atenção na obra de João do Rio, em particular A alma encantadora das ruas, é a precisão de suas opiniões e sua visão de futuro, suas previsões, muitas delas acertadas.Era um homem moderno, repórter com alma de flaneur. Fico imaginando seu comportamento naquela época. Sua homossexualidade enrustida, camuflada, transbordando em pequenos gestos, na Belle Époque Tropical . Em uma de suas crônicas ele escreve: “E eu prefiro morrer de atordoamento e loucura a viver numa cidade triste”. Caminhando pela Lapa, Largo do Machado, atravessando a cidade para os grandes bailes na Tijuca. Bonito não era, pelo contrário, era feio o bastante para despertar nos racistas e preconceituosos todo tipo de ironia e deboche. Ainda assim, não consigo imaginá-lo escondido embaixo da cama, temendo a hostilidade dos invejosos, pelo contrário, mostrava o que pensava, jamais deixou sua extravagância escapar aos pensamentos. Entrou para a Academia Brasileira de Letras na terceira tentativa, em 1910.
A alma encantadora das ruas é um livro delicioso, cheio de curvas, morros, vozes, cores. É um documento fértil, um patrimônio histórico. Não conheço nenhum outro livro, qualquer outro texto, que ilustre a cidade do Rio de Janeiro da maneira que João do Rio fez. Um livro com a alma tão encantadora quanto a alma das ruas que ele próprio descreve em suas crônicas. Me sinto privilegiado por viver numa cidade como o Rio. Quando passeio pelo centro da cidade, é impossível não sentir a história que as ruas carregam. É impossível caminhar pela rua do Ouvidor sem imaginar João do Rio desvendando sua alma e seus mistérios. Basta parar alguns minutos em frente ao Teatro Municipal, fechar os olhos e sonhar com a grande noite de estréia de sua primeira peça teatral, em 1912. Ou imaginar seus falsos flertes com grandes estrelas, uma delas era Isadora Duncan, que se apresentou no Brasil, ali no Teatro Municipal, em 1916, e esteve com João do Rio grande parte do tempo, se conheceram anos antes, em Portugal.
Hoje quando atravesso os Arcos da Lapa e vejo homens trabalhando, restaurando aquele monumento, pintando, fico pensando como foi a construção, em 1723. Tenho como vizinhos ruas famosas, importantes, como a Frei Caneca, a pequena rua dos Inválidos, a tímida rua da Lapa, a atrevida rua Riachuelo. A Mem de Sá, que hoje tem um trecho fechado nos finais de semana, transformando-se em um grande palco para todo tipo de fanfarrices, comemorações e divertimentos. A Fundição Progresso também fica perto da minha casa, sempre com atrações, sempre acolhedora, convidativa. E o que dizer da rua do Lavradio, com sua gigantesca feira a céu aberto? Se João do Rio amou e idolatrou as ruas do Rio no século passado, hoje ele faria de toda essa diversidade uma obra jornalística ainda maior. Foi com certeza o homem que mais se aprofundou na alma do Rio. Virou do avesso o espírito do carioca. Polêmico. Inteligente. Elegante.
João do Rio sentiu-se mal durante todo o dia 23 de junho, era 1921. Entrou em um táxi e o mal estar aumentou. Pediu ao motorista que parasse o carro e lhe trouxesse um copo d’água. Antes que o socorro chegasse ele morreu de infarte. Rapidamente a notícia de sua morte se espalhou, estima-se que mais de 100 mil pessoas compareceram para o último adeus ao escritor.
A editora Cidade Viva acaba de lançar uma edição de luxo. Bilingue português-inglês, com ilustrações de Waltércio Caldas.
Enquanto ouço Suely Mesquita, leio Suely Mesquita e fico sabendo como foram feitas algumas de suas muitas canções. Dezenove delas estão reunidas no CD que acompanha o livro recém-lançado com a biografia desta cantora, compositora e professora de canto de um número grande de alunos, muitos deles cantores que se tornaram famosos. O livro é bom de ler, como são boas de ouvir as canções de Suely. Só tem um detalhe: ao contrário das músicas, todas em ótimo português, o livro é todo em inglês: a trajetória e história das criações desta carioca chamaram a atenção de um professor e escritor americano, que veio para cá, fez várias entrevistas com ela, reuniu fotos e publicou por uma editora americana Sexo Puro: A life in Brazilian Song – Suely Mesquita interviewed by Bob Gaulke.
Capa do livro 'Sexo Puro', biografia de Suely Mesquita
O livro foi lançado num show delicioso, no Estúdio EcoSom, em Botafogo, na noite de sexta-feira, 13 de agosto. O autor acompanhou toda a festa dos Estados Unidos, via internet: a câmera de um laptop mostrava tudo ao vivo, de modo que Bob Gaulke, que conheceu Suely no início dos anos 2000 em listas de discussão sobre música brasileira na internet, pudesse participar do lançamento de sua criação.
Suely Mesquita
Alguns dos parceiros constantes de Suely Mesquita subiram ao palco para canjas variadas, que passearam pelo repertório denso, lúdico e criativo dela. Fernanda Abreu abriu a noite, cantando Roda que se mexe, parceria das duas com Rodrigo Campello. E como o clima era de encontro de amigos, Fernanda contou uma das muitas boas histórias da noite sobre Suely: toda vez que toma banho e lava a cabeça, lembra da amiga de muitos anos, com quem já teve aula de canto. Numa delas, Fernanda chegou e Suely, ainda de toalha para secar os cabelos molhados, botou a cabeça pra baixo, sacudiu a cabeleira com as mãos para soltar os fios de dentro para fora, de baixo pra cima, e só então jogou a cabeça de volta pro lugar. “Aprendi e até hoje faço isso. E toda vez que lavo a cabeça lembro da Suely. Como hoje tomei banho e lavei a cabeça, lembrei dela”, disse Fernanda, que, enquanto falava, imitava o gesto, para gargalhada da platéia. “Lembro, mas não faço mais isso, não”, riu Suely.
Depois foi a vez de Luís Capucho, que relembrou trechinho de Romena, composta por Suely a partir de uma história de Fernanda, e Batata, que está no CD numa gravação original feita anos atrás e gravada em fita cassete. “Muitas das músicas que fiz nos anos 90, só sei que fiz porque Suely gravou na casa dela, enquanto eu mostrava pra ela”, disse Capucho.
Capa do CD que acompanha o livro sobre Suely Mesquita: 19 canções dela com parceiros
Na seqüência, Glauco Lourenço, cujo CD de estréia tem a maioria das músicas feitas em parceria com ela, cantou Realejo, que está em Abalo Sísmico(em preparação, o segundo CD do cantor também terá a maioria das canções em parceria com Suely Mesquita).
Paulo Baiano cantou e tocou ao piano Forças de Angola, outra música que mereceu história da criação – também contada no livro: ela trabalhava na enciclopédia Barsa e um dia, no meio das tarefas de recolher os acontecimentos de cada dia para o anuário, topou com a informação que dizia que naquele data “forças da Angola invadiram o país vizinho”. A frase virou inspiração e na mesma hora, numa página em branco, Suely concebeu a letra (enorme) de Forças de Angola, musicada depois por Paulo Baiano, com cara de oração e ponto de macumba. Linda.Bethi Albanoencerrou o revezamento de canjas da noite com Bala de rima..
Suely Mesquita e Eugenio Dale, no show Dio&Baco (foto: Marisa Porto)
Cada uma das histórias que envolveu a criação dessas canções está descrita em Sexo Puro: A life in Brazilian Song – Suely Mesquita interviewed by Bob Gaulke, com letras das 19 músicas do CD que o acompanha. Além disso, no livro ela fala sobre a descoberta de seu talento, o início da carreira, os parceiros… No fim, há uma discografia minuciosa, com a relação dos CDs gravados e lançados por Suely Mesquita, a trilha de um filme, as músicas dela gravadas por outros artistas.
Ao longo de todo o livro, vai-se esbarrando com nomes conhecidos e percebe-se como a gente está acostumado à Suely, embora ela soe para muitos como uma novidade. Além dos parceiros da noite de lançamento de Sexo Puro, compuseram e/ou cantaram Suely, entre outros, nomes como Zeca Baleiro, Moska, Celso Fonseca, Daúde e Pedro Luís, que assina a introdução da biografia.
É ótimo descobrir novidades e, melhor ainda, descobrir que as supostas novidades são nossas conhecidas de muito tempo. Suely é popular, engraçada, profunda, leve e complexa, tudo misturado, num som que não dá vontade de parar de ouvir – ao contrário dos hits-chiclete, que grudam no ouvido e dos quais a gente quer se livrar. Das músicas dela, não. Ouve-se de novo para ouvir melhor, captar a letra, pegar o que se perdeu na primeira audição, saborear a melodia. Com o livro do lado, ouvi-la é ainda mais prazeroso.
Um pequeno apêndice fundamental: além das participações, Suely Mesquita e o parceiro do momento, Eugenio Dale, fizeram várias canções que estão no show Dio&Baco, que têm feito juntos (Pactocombacoé genial). Um programão. E o que é melhor: vai voltar o EcoSom em setembro. É bom prestar atenção.
A transmissão ao vivo está gravada e, com paciência, pode-se assistir ao show abaixo. Vale a pena: